





Edmar Ribeiro
Hugo de Carvalho Ramos
Sua obra, "Tropas e boiadas", é leitura obrigatória para compreensão da sociedade goiana.
Hugo de Carvalho Ramos, nascido em 21 de maio de 1895 na então Vila Boa de Goiás, hoje Cidade de Goiás, é uma figura seminal na literatura regionalista brasileira, especialmente no contexto goiano. Sua curta vida, encerrada tragicamente pelo suicídio aos 26 anos, em 12 de maio de 1921, no Rio de Janeiro, contrasta com a longevidade de sua única obra publicada em vida, Tropas e Boiadas (1917). Esse conjunto de contos permanece como um marco da literatura brasileira, refletindo a riqueza cultural e social do sertão e estabelecendo um diálogo atemporal com leitores e críticos literários.
Filho do juiz e poeta Manoel Lopes de Carvalho Ramos e de Mariana Fenelon Ramos, Hugo cresceu em um ambiente familiar que unia a severidade paterna ao carinho e influência de sua mãe, Mariana. Dotada de grande sensibilidade e inteligência, Mariana desempenhou um papel crucial na formação do jovem escritor, sendo uma figura de apoio emocional e intelectual para ele. Mais do que apenas mãe, foi uma confidente e incentivadora que compreendeu a alma inquieta e criativa de Hugo. Seus diálogos e atenção contribuíram para moldar a visão do autor sobre as complexidades humanas, especialmente sobre os papéis de resistência e resiliência feminina, temas que ele abordaria em sua obra.
Desde cedo, Hugo demonstrou fascínio pelos clássicos universais, algo que moldaria sua produção literária. Entre seus colegas de estudo, figurava Cora Coralina, que também se tornaria um ícone da literatura goiana. Embora não fosse considerado um aluno exemplar no Liceu Goiano, sua paixão pela escrita o levou a iniciar precocemente uma carreira literária, compondo contos de notável maturidade aos 15 e 16 anos. Durante esse período, Mariana foi um suporte constante, acompanhando as leituras do filho e encorajando sua busca por uma voz literária própria.
Quando se transferiu para o Rio de Janeiro, em 1916, para cursar Direito, Hugo entrou em contato com um universo cultural diverso e estimulante. Contudo, a distância da mãe e das raízes goianas intensificou a solidão que permeava sua alma. Mesmo à distância, Mariana mantinha correspondência com Hugo, buscando apoiar seu filho emocionalmente em meio às dificuldades da vida na metrópole. Foi nesse período que consolidou a publicação de sua obra mais importante, Tropas e Boiadas, que logo atraiu elogios da crítica, incluindo de figuras como Oswald de Andrade. Essa coletânea trouxe o sertão de Goiás para o centro da literatura brasileira, antecipando temas e estilos que seriam retomados por escritores como Guimarães Rosa.
Hugo na Quinta da Boa Vista, na época
em que estudou no Rio de Janeiro
Publicado em 1917, Tropas e Boiadas insere-se no movimento regionalista brasileiro, caracterizado pela exploração de espaços geográficos e culturais específicos do país. Contudo, a obra de Hugo vai além de um mero retrato descritivo do sertão goiano. Suas narrativas são impregnadas de lirismo, introspecção psicológica e crítica social, abordando conflitos existenciais e a relação simbólica entre homem e natureza. Composta por 14 contos, a obra destaca-se pela linguagem erudita mesclada à oralidade sertaneja, permitindo que o leitor mergulhe na autenticidade do cerrado, suas paisagens e personagens. Ramos descreve vaqueiros, tropeiros e mulheres sertanejas com uma humanidade que transcende clichês, expondo suas contradições, dores e lutas pela sobrevivência em um cenário muitas vezes hostil.
O sertão é retratado por Hugo como um espaço simultaneamente acolhedor e desafiador. Seus personagens enfrentam adversidades ambientais, revelando a resiliência humana diante das forças da natureza. O isolamento geográfico e emocional, combinado com a presença marcante da oralidade sertaneja, reforça a identidade cultural e aproxima o leitor da realidade retratada. É possível enxergar, em alguns contos, reflexos da presença materna que moldou sua visão sobre o mundo. Mariana, com sua força silenciosa, talvez tenha inspirado a complexidade e a dignidade que Hugo atribuiu às mulheres de suas narrativas.
Entre os contos, destacam-se “Nhola dos Anjos”, que celebra a força feminina diante das convenções sociais, e “O Pouso Alegre”, uma narrativa melancólica sobre as relações humanas em um ambiente opressor. Já “A Triste História de Luzia” explora o impacto do abandono e da solidão, trazendo uma dimensão emocional profunda às histórias que Hugo narrou com sensibilidade e realismo.
A obra Tropas e Boiadas foi reconhecida como uma das 20 mais importantes da literatura goiana do século XX, alcançando o primeiro lugar em uma seleção promovida pelo jornal O Popular. Mais do que um retrato de época, o livro consolidou Hugo de Carvalho Ramos como precursor do regionalismo em Goiás e influenciou gerações de escritores. Sua prosa inaugura um olhar introspectivo sobre o sertão, antecipando questionamentos que seriam aprofundados no modernismo. A universalidade de sua obra e sua capacidade de captar a essência de um lugar tornam Tropas e Boiadas leitura obrigatória não apenas para os goianos, mas para todos os apreciadores da literatura brasileira.
A tragédia pessoal de Hugo de Carvalho Ramos, marcada por perdas, conflitos familiares e depressão, contrasta com a vitalidade e o impacto de sua produção literária. Sua relação com Mariana, de profunda conexão afetiva, pode ser vista como um ponto de luz em sua vida breve e tumultuada. Apesar de sua morte precoce, sua obra é uma celebração da cultura e das paisagens do cerrado, uma testemunha da riqueza e complexidade da vida sertaneja. Revisitar sua obra não é apenas compreender o passado, mas perceber como a literatura pode transcender épocas e fronteiras, revelando a essência de um Brasil profundo que se mantém vivo nas palavras de um autor cuja voz ainda ecoa na história da literatura nacional.
Análise Literária de Tropas e Boiadas
Contexto e Gênero
Tropas e Boiadas (1917), único livro publicado por Hugo de Carvalho Ramos em vida, insere-se no movimento regionalista brasileiro que floresceu no início do século XX. No entanto, a obra transcende o regionalismo meramente descritivo e exalta o sertão goiano como espaço de conflitos sociais, simbólicos e existenciais. Publicada em uma época de transição entre o realismo/naturalismo e o modernismo, a coletânea de contos carrega influências clássicas, mas também prenuncia aspectos da literatura modernista.
O livro é considerado uma das primeiras representações literárias do sertão de Goiás, destacando o papel da oralidade, os costumes locais, e a interação entre homem e natureza.
Estrutura e Estilo
A obra é composta por 14 contos que apresentam narrativas marcadas pelo lirismo, pelo caráter descritivo e pela preocupação com o psicológico dos personagens. Os textos possuem uma linguagem erudita, mas não se afastam completamente da oralidade típica do ambiente retratado. Essa escolha estilística reflete uma tentativa de aproximar o leitor dos dramas e das belezas do sertão.
Hugo de Carvalho Ramos utiliza descrições vívidas da paisagem para contextualizar os conflitos internos e externos das personagens. As figuras humanas, como vaqueiros, boiadeiros e tropeiros, são descritas com profundidade, revelando suas contradições e a luta por sobrevivência em um ambiente muitas vezes hostil.
Temas Principais
Conflito entre o homem e a natureza
O sertão é retratado como um espaço que simultaneamente acolhe e desafia seus habitantes. Os contos mostram como a natureza molda a existência humana, com cenários que ora representam a liberdade, ora a opressão.
Solidão e fatalismo
A solidão é uma constante na vida dos personagens, refletindo o isolamento geográfico e emocional do sertão. Esse aspecto remete a uma visão fatalista da vida, característica do regionalismo da época.
Oralidade e identidade cultural
Ramos utiliza elementos da cultura popular, como ditados e expressões regionais, para dar autenticidade às narrativas e reforçar a identidade cultural de Goiás.
Crítica social
Apesar do tom lírico, há uma crítica implícita às condições precárias de vida no sertão e à ausência de políticas públicas que pudessem aliviar as dificuldades enfrentadas pelos habitantes.
Personagens
Os contos exploram personagens do sertão goiano, como boiadeiros, tropeiros, mulheres sertanejas e pequenos agricultores. Eles são descritos com humanidade, expondo tanto suas virtudes quanto suas falhas. Ramos foge de idealizações, mostrando personagens que convivem com a dureza do cotidiano, a violência e a necessidade de adaptação ao meio.
Enredos de Destaque
"Nhola dos Anjos"
Conta a história de uma mulher forte que desafia as normas sociais e enfrenta preconceitos, representando a força feminina no sertão.
"O Pouso Alegre"
Um conto melancólico que aborda as relações humanas mediadas pelo ambiente opressor do sertão.
"A Triste História de Luzia"
Uma narrativa comovente que explora o impacto do abandono e da solidão em um ambiente de adversidade.
Importância Literária
Tropas e Boiadas consolidou Hugo de Carvalho Ramos como precursor do regionalismo em Goiás, influenciando autores como Bernardo Élis e Guimarães Rosa. Embora tenha sido publicado em um período de pouca visibilidade para a literatura goiana, a obra contribuiu para inserir o sertão de Goiás no mapa literário brasileiro.
Além disso, a obra inaugura um olhar mais introspectivo e humano sobre o regionalismo, antecipando questões que seriam aprofundadas na literatura modernista. Sua crítica social sutil e o lirismo das descrições paisagísticas continuam a ser objeto de estudo e admiração, tanto no âmbito acadêmico quanto no literário.